Ryan Gosling interpreta um motorista que mantém na rédea uma carreira dupla, dirigindo  como dublê e para o crime. Sem história e sem nome, o personagem de Ryan se torna um grande herói solitário, calado e autruísta. Bem pontuado pelo Rotten Tomatoes e demais sites de crítica, Drive é um clássico no modelo noir, com personagens de moral ambígua, femmes fatales e as cenas em chiaroscuro, que consegue surpreender e é considerado por uns mais um da fileira (infindável) de filmes injustiçados do Oscar 2012.

Driver (sem nome e sem origem) trabalha em uma oficina com um ex-dublê de perna avariada e ligações com o crime, que o acolheu e cedeu emprego. Como é habilidoso no volante, Driver se torna motorista dublê e realiza alguns trabalhos dirigindo para assaltantes. Ele é fechado, calado e solitário. Até que conhece Irene, uma dona de casa com o marido na prisão e um filho. Naturalmente, os dois se aproximam, até que o marido de Irene é liberado, e ainda envolvido com o crime, arrasta todos os outros personagens para uma cadeia de acontecimentos trágicos. E o filme sofre uma grande metamorfose. As cenas pacíficas que tomam grande parte da primeira metade do longa-metragem somem, dando lugar à brutal violência, digna de Tarantino. Os fatos agregam-se como anéis de uma corrente e o protagonista é engolido em seqüências de violência.

A quantidade escassa de diálogos marca o filme, o que é magistral, primeiro porque exige uma grande habilidade dos atores, uma vez que sem palavras, toda a atenção se volta para as expressões dos personagens, e segundo porque isso, nas cenas certas, torna todo e qualquer filme mais real, sem diálogos e frases feitas, apenas olhares significativos e silenciosos. Tão certeira quanto a escolha do silêncio nas cenas só mesmo a do ator principal. Ryan Gosling responde perfeitamente ao pesado papel e cria desde já um ícone. Acredito que a injustiça do Oscar foi principalmente pela ausência de uma indicação de melhor ator a ele. Mas, convenhamos, o Oscar já deixou de ser sinônimo de qualidade há tempos.


Amarras poderosas se formam logo após a primeira metade do filme. A tensão, inexistente na primeira parte, é sufocante quando aliada à nota sonora prolongada e às cenas de silêncio e olhares intensos e toda a atmosfera pesada se reflete na violência bruta, que me pegou de surpresa.

Eu não posso deixar passar a trilha sonora. Existe uma obra-prima no ultimo CD de Justin Vernon e banda (Bon Iver), que me agrada bastante. Muito pela sonoridade, mas em maior parte pela imagem que ela me traz. Beth/Rest é a última música do álbum e lembra meus pais. É a típica música dos anos 80, no estilo “say you, say me” do Lionel Richie. Eu sou pleno admirador de coisas antigas do tipo 80’s e a trilha sonora de Drive foi um inesperado presente, que casa perfeitamente com as cenas e o enredo, além de dizer tudo aquilo que não é verbalizado pelos personagens. Nightcall, na abertura, é um dos grandes pontos fortes do filme.

Drive não é um filme pra todos. O ritmo compassado vai desagradar os espectadores mais famintos por ação e combate. Em Drive não há explosões ou mesmo séries de capotamento. O filme é bem mais profundo que isso. Obviamente porque o foco não são os carros, mas sim quem os dirige.