Muito provavelmente você já deve ter visto este sorriso sutil e este olhar característico da jovem aqui ao lado em alguma revista, site ou livro por aí. Trata-se de Amélie, a protagonista de Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain, um filme francês impecável nos mais diversos aspectos, considerado por muitos um clássico da atualidade. Se você passou comigo por Beirut e Cocoon, chegou a hora de encontrar na sétima arte, o equivalente para tal beleza. 

"A 3 de setembro de 1973, às 6 horas, 28 minutos e 32 segundos, uma mosca capaz de bater as asas 14.670 vezes por minuto pousava na rua St. Vicent, a Montmartre. No mesmo segundo, no pátio de um restaurante perto de La Galette, o vento engolfava como por magia uma toalha e fazia dançar os copos sem que ninguém o notasse. No mesmo instante, no 5º andar do 28 da Av. Trudaine do 9º bairro, Eugène Colère, regressado do funeral do seu maior amigo, apagava o nome dele do seu livro de moradas. Ainda no mesmo segundo, um espermatozóide de M. Raphaël Poulain destacava-se do pelotão e rompia um óvulo de Mme. Poulain, nascida Fouet, vindo nove meses mais tarde ao mundo Amélie Poulain." 

O Fabuloso destino de Amélie Poulain, na tradução para o português, é um filme de Jean-Pierre Jeunet, de 2001, que conquistou a crítica e conseguiu cinco indicações ao Oscar. Vi o filme quando era criança e não dei tanta importância na época. Reencontrei Amélie Poulain esse ano e fiquei, mais do que nunca, fascinado. 

Como sinopse, a obra trata da vida da jovem Amélie, desde a primeira ponta de existência, como mostra o trecho acima, e enuncia uma mudança brusca na vida da moça, um fabuloso destino que se inicia com uma ação sutil, no melhor estilo dominó. A partir disso, Amélie se sente impelida a intervir no destino de outras pessoas, mudando radicalmente a vida delas, como uma espécie de justiceira, sem perceber que enquanto muda pra melhor a vida dos outros, vai esquecendo a própria. 
"Estranho destino, o desta jovem espoliada de si mesma, mas tão sensível ao encanto discreto dos pequenos nadas da vida. Tal um Dom Quixote, decidira atacar o implacável moinho dos sofrimentos humanos." 

É um filme que se caracteriza, dentre outras coisas, pelo fato curioso de revelar ao longo da história as mínimas características de Amélie e de personagens secundárias como, por exemplo, da companheira de trabalho Georgette, hipocondríaca e que não gosta de ouvir “bendito fruto do nosso ventre” por algum motivo que só Deus sabe. Essa característica, vamos dizer minimalista, da obra mostra mais do que tudo um traço da própria Amélie, de observar com curiosidade as menores e mais intrínsecas características das coisas, e como a própria diz “notar o pequeno pormenor que ninguém mais verá.” Eu tenho que revelar que isso é a segunda coisa que mais de deixou extasiado no filme. A primeira foi a trilha sonora. 

Composta por Yann Tiersen, a coletânea de sons que embalam a vida de Amélie é a mais bonita que eu já ousei ouvir de um filme. Como eu disse na introdução, o conjunto da obra se iguala à beleza, atribuída por mim, de Cocoon e Beirut. O que vale para a trilha sonora. São músicas instrumentais que você já deve ter ouvido como, por exemplo, La Valse Des Monstres e Comptine d'un Autre Été. Incríveis. O tema da personagem principal, La Valse d'Amélie, varia em quatro outras músicas, de mesmo nome, mas com arranjos diferentes em piano ou com toda uma orquestra. Todas essas melodias se adaptam muito bem ao filme ampliando a emoção da cena, seja ela melancólica ou animada, o que naturalmente é a função de uma trilha sonora, mas que, aqui, Yann Tiersen faz com maestria. 

Eu destacaria ainda a fotografia do filme, enraizada no melhor do vintage, contrastando as cores vermelha e verde, criando imagens lindas, principalmente as que retratam a infância da protagonista. Sem som e sem história, o filme já é incrível. 

Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain é uma obra de arte completa, como poucas no ramo da sétima arte, possui um enredo envolvente, uma fotografia de encher os olhos e trilha sonora que lhe cai como uma luva, com músicas únicas, criadas pelo GÊNIO, e não menos que isso, Yann Tiersen. 

Eu procurei mesmo algo que não me agradasse no filme, pra não deixar o texto pender para um lado, mas não encontrei e o texto inevitavelmente pendeu. Talvez o olhar de águia e crítico-ácido de José Wilker não me pertença, o que não minimiza minha opinião e nem a sua. Então, se você já viu o filme e quiser comentar o que achou (positivamente ou negativamente), sinta-se à vontade. E se você ainda não viu Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain, não espere mais e não pense duas vezes em assistir o original em francês. 

Um abraço de tigre do Hobbes.