Livro: O Pacto
Autor: Joe Hill
Páginas: 320
Editora: Sextante
Minha nota:

[...] Olhou de relance para o seu reflexo no espelho acima da pia e viu que tinha criado chifres durante a noite. O susto foi tão grande que o fez recuar e, pela segunda vez em 12 horas, mijou nos próprios pés.
~ pág. 8

Por mais sobrenatural que o trecho acima pareça, O Pacto é o um dos livros mais reais e humanos que já li. Decerto existem coisas bem inusitadas, além dos chifres, mas tudo isso me parece mera alegoria.

Quando Ig, personagem centro da história, acorda e depara com chifres na testa, descobre que além de ornamentos cranianos eles induzem as pessoas a revelar seus desejos sufocados e segredos mais sujos, o que, pra mim, é a grande sacada de Joe Hill. Usando essa premissa, Ig caminha entre as personagens mostrando, a cada depoimento, o quão hipócrita pode ser o homem. Cada mentira contada e cada fingimento deixam o livro perturbador e fazem quem lê rever o fato de saber no que as pessoas pensam.

É claro que o livro não se baseia somente nos chifres e seus poderes. Há um algo a mais. Um romance trágico que envolve todas as páginas. Ig é acusado de ter matado sua namorada, passando a ser odiado por toda a cidade. Pulando de pensamento a memórias, a história vai sendo traçada, e o crime sendo esclarecido, e devo dizer que isso me trouxe um remorso imenso por não poder fazer nada enquanto os fatos ocorrem.

Um ponto forte do livro - entre os tantos outros - é a linguagem. Possivelmente é a escrita mais sem escrúpulos que eu li até hoje, e se você não suporta isso eu não aconselharia ler. Chega a ser vulgar.

- Gostei do AC/DC – Disse Lee – Se fosse atirar em alguém, sem dúvida ia querer estar ouvindo aquela música.
- E o que achou dos Beatles? Ficou com vontade de atirar em alguém enquanto ouvia?
Lee pensou seriamente por um momento e depois disse:
- Em mim mesmo.
~ pág. 92

Não devo falar muito para não atrapalhar a leitura, mas asseguro que são 320 páginas que valem as suas horas.